quinta-feira, 27 de março de 2014

Vezes

Acabo perdendo meus sorrisos, às vezes, quando necessito sentir-me extremamente vivo. O pequeno trevo, que um dia fora motivo de poema, hoje, seu vaso jaz seco, como árvores de inverno, e talvez, naquela época, meus sorrisos, tão verdadeiros, fossem mas fáceis de acontecer. 

Eu não sei bem como lidar com o caso, o passarinho chora por vida. 

Tem dias que acordo e agradeço, na verdade, na maioria das vezes. E nos raros dias, simplesmente esqueço, daí sinto gosto de Melissa.
Às vezes o que mais preciso, é do silêncio e da música que as árvores cantam no outono, até silenciarem de uma vez, quando suas folhas caem.

Clamo por socorro já à algum tempo.
Algumas vezes invejo alguém, mas é só por alguns instantes.

Quando tudo isso acabar, vou sorrir e dizer: ah, como eu era bobo!


quarta-feira, 12 de março de 2014

Os meus momentos

A professora gritou o tempo determinado para que nossas receitas estivessem prontas, no prato e decoradas. Minha sopa de legumes American Bounty não parecia ser difícil, mas cortar todos os legumes em brunoise num determinado tempo realmente não colabora com a perfeição. Foi muito estresse, correria e canseira, cheguei a pensar que se todos os dias fossem como foi ontem, talvez eu não alcançaria o diploma. 
Então, depois que o Pablo chegou do trabalho, fomos até o Pão de Açúcar, que eu me apaixonei novamente, tanto pelo mercado quanto pela gastronomia. Saboreei o perfume de TODOS os queijos; encantei-me pelas panelas francesas de ferro, que são lindamente alaranjadas (são mesmo francesas?); deixei que as cores das frutas e flores, colorissem minha tristeza que insiste em me irritar; observei as velhas ricas tomarem seus cafés importados e desejei saber sobre a vida de todos os que esquecendo de seus problemas, mantinham a mesma expressão despreocupada entre os chás ingleses que eu gostaria muito de provar, mas prefiro meus rins. Por fim, comprei os ingredientes necessários (mais tarde eu descobri que faria massa de macarrão), e uma sacola de rodinhas simpática que facilitou demais minha vida.

Hoje tomei apenas um chá de frutas silvestres quando acordei, vesti a calça xadrez e desci para onde a van sempre me pega. Fizemos a massa do macarrão e aprendemos a tornear legumes, tudo numa paz tão boa, que me senti idiota por pensar no que pensei, pelo menos, percebi que gosto mais disso tudo do que me julguei gostar.
Na aula de história da gastronomia, aprendemos mais sobre os egípcios, gregos e romanos, com a professora mais amável do mundo. Ela tem um sebo online, e sempre leva uma sacola cheia de livros adoráveis sobre gastronomia, e eu, compro impulsivamente é claro, quem resiste a livros baratíssimos?

Depois que todas as aulas do dia acabaram, fui até a biblioteca comer frutas trazidas de casa, ouvir música, pensar, escutar a conversa dos outros, e por fim, fazer trabalho, nos computadores arcaicos que a faculdade dispõe. Quando já não tinha mais o que fazer, esperei sentado num dos bancos rústicos  em meio as árvores, até que desse o horário de ir embora, refletindo sobre minha vida, quando cheguei a uma conclusão e decidir começar a escrever este post, o qual termino na sala de espera da clínica do meu médico. 

Espero ansiosamente pelo frescor do outono. Bom final de verão.





terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Rotina

Acordei quando o sol nasceu, meu antebraço esquerdo congelando, metade da coberta no chão; levantei estabanado e desliguei o despertador, abri a "janela" e deixei a brisa fria demais para o verão, lamber meus lábios. 
Depois do banho deixei que a água quente relaxasse meus ombros. Vesti meus jeans preto e a camisa de flanela xadrez acizentada, peguei meus materiais e desci pra cozinha. Sem muito apetite torrei um pão de forma integral e passei cream cheese. Fui sentir a manhã gelada de um típico outono na sacada, bebericando chá de camomila e anis.
O vento gelado demais obrigou-me a cruzar os braços. O frio me fez lembrar do passado, na época da oitava série, e desejei ter aproveitado mais. Dessa vez consegui sentar no ônibus, e perdi-me na cozinha de séculos atrás, no livro que a professora de história da gastronomia indicara.
Localizei meu grupo e fui até eles, coloquei a touca e adentrei-me na cozinha. Hoje fizemos mirepoix, tomate concassé, fundo de vegetais com sachet d'épices, manteiga clarificada e mais algumas coisas feitas com ossos - me tirando ainda mais a vontade de comer carne.
Saí da cozinha extremamente quente, tirei a touca e respirei ar gélido. Sentado na sombra de uma das árvores, fechei os olhos e deixei meu cabelo fazer cócegas nas pálpebras fechadas, esvaziando a mente.
Também pude ler no ônibus, na volta pra casa, o capítulo em que descreve o banquete do funeral do rei Midas. 

Já tenho uma rotina impregnada em minha vida, a qual um dia, pensei que estaria longe demais, mas tudo passou tão depressa, que tenho a impressão de nunca ter passado pelo que passei, quase não tenho cicatrizes.